quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O problema da falta de água ou a falta de problema de água?

Todos sabem que o Brasil vive uma crise hídrica histórica desde o ano passado. Um problema que atingia o Nordeste há anos e que chegou com força na região Sudeste.

Infelizmente para a população, 2014 também foi um ano de eleições e em anos como esse tem uma palavra que é quase uma heresia ser pronunciada por candidatos de qualquer esfera: PROBLEMA!

Aliás, pelo contrário. PROBLEMA é a palavra preferida de ataque entre adversários políticos. Problema na Petrobrás, problema de apagão, problema disso, problema daquilo... PROBLEMA! Sempre ou em 99% das vezes, negados com veemência pelo “acusado” como se tivesse recebendo uma ofensa pessoal.

Pois bem, aí é que mora o PROBLEMA e que resume um pouco da terrível situação que o país atravessa hoje com essa crise de abastecimento de água.

Por não admitir que a falta de água fosse um PROBLEMA, as medidas de contingência necessárias para enfrentá-lo, não foram devidamente tomadas. Podemos ver no vídeo abaixo, o Governador do Estado de São Paulo, em plena campanha eleitoral, negando que o PROBLEMA existe.


O PROBLEMA está aí e agora precisa ser resolvido. Medidas mais drásticas devem ser tomadas agora, como racionamento, corte de água em algumas regiões... Será um período complicado e que deve durar bastante tempo. Detalhe: o PROBLEMA ainda é timidamente admitido nas altas esferas governamentais.

Trabalho com melhoria há mais de 15 anos, tendo passado destes, 5 anos na Toyota. Nessa empresa tive contato com o Sistema Toyota de Produção e com varias peculiaridades do mesmo que hoje sou 100% de acordo. Algumas frases que ouvia demais:

“O pior problema é não ter problema”“Se você não tem problema, não está gerenciando direito”“Mostre-me o que está mal, não o que está bom”
São varias, mas uma das minhas preferidas sem dúvidas é:

“O primeiro passo pra resolver um PROBLEMA é assumir que o PROBLEMA existe”

Detalhe: isso é cultura em empresas japonesas desde a década de 1950, no mínimo. Custa-me acreditar que nossos governantes, em sua maioria com uma bela formação acadêmica, não tenham consciência de algo tão elementar. A gestão publica brasileira está em outra era, anos-luz de distancia das mais “modernas” técnicas de gestão.

Dessa forma, não há outra forma que não seja tirar das mãos de pessoas despreparadas e passar para quem tem mais condições de gerenciar.

No texto do link abaixo (em inglês), o autor expõe duas das principais causas da falta de agua no Brasil: falta de manutenção da rede de distribuição e falha na gestão do desmatamento da Floresta Amazônica.


A gestão de abastecimento de água nas mãos de uma empresa privada diminuiria muito o primeiro ponto, da falta de manutenção. Perda de água na distribuição por vazamento significa prejuízo financeiro pra empresa, ou seja, um PROBLEMA!

Hoje moro em um país onde o período de estiagem dura 6 meses. Sim, meio ano praticamente sem uma gota de chuva... e não falta uma gota de agua! 100% da distribuição de agua do país é feita por empresas privadas que não tem medo de PROBLEMA e sabem que:

“O primeiro passo pra resolver um PROBLEMA é assumir que o PROBLEMA existe”


Não é o que acontece na gestão pública... infelizmente.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Oras bolas NFL

Um dia após o Super Bowl XLIX, tive acesso a um vídeo que explica o processo de fabricação de uma bola de futebol americano. Fiquei muito surpreso com o que vi e confesso que a surpresa foi negativa. Vejam o vídeo:



https://www.youtube.com/watch?v=HZnkhjwQp0A

Alguns problemas e desperdícios que podem ser vistos no vídeo:

- A parte da costura foi o primeiro ponto que me chamou a atenção. Um operador menos experiente teria muitos problemas em concluir essa tarefa sem produzir bolas com defeitos. Um dispositivo Poka-Yoke poderia ser usado aqui para ajudar a posicionar o couro e fazer uma costura perfeita.

- Outro ponto é parte de virar a bola do avesso. Vapor, martelo e o processo de virar são um risco à ergonomia e a integridade física do operador.

- A parte do laço também tem problemas ergonômicos importantes e, por fim, a prensa que molda a bola, gera uma grande espera para a operadora.

- Outro desperdício citado ao final: a bola “perfeita” depende do quaterback que vai utilizá-la, ou seja, mais sobre processamento.

Algo mais que vocês viram?

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

O caso da pizza

Depois de alguns meses vivendo em Santiago, começo a me dar conta de alguns benefícios de viver em um país com alto grau de liberdade econômica. Aqui tem uma série de restaurantes que eu nunca havia experimentado no Brasil, seja por não existirem, seja por existirem em quantidade reduzida.

Um desses restaurantes é a Pizzaria Papa Johns. Na verdade, não é bem um restaurante. É uma pizzaria para viagem e delivery, a quarta maior do gênero nos Estados Unidos, de onde é sua origem.

Na última sexta-feira estive em uma de suas lojas em Santiago e comprei uma pizza. Como gosto muito de processos me chamou muito a atenção o sistema de produção da Pizzaria. Vou destacar alguns pontos que me deparei nos 20 minutos que estive na loja:

1 – 5S e layout: excelente nível de organização, de ordenação do local, limpeza, padronização (cardápios, caixas, painéis, uniformes). Podemos comprovar pela foto que tirei (ao lado), que, pra onde você olha é fácil identificar que está em um Papa Jonhs com um bom nível de 5S. Outro ponto é o layout em U para facilitar o fluxo da pizza até o forno, passando por 3 postos de trabalho (abertura da massa, molho e recheio);


2 – Capacitação, instrução de trabalho e disciplina: fiquei observando como o caixa me atendeu e como o mesmo atendimento foi replicado a outros clientes. O método para fazer a pizza também é um destaque aqui. Eram quatro pizzaiolos em diferentes partes do processo e todos seguiam o padrão de “construção” das pizzas à risca. Padrões estes que estão expostos nas paredes do local, com quantidades de ingredientes, tamanhos de porções, etc, como podemos ver na foto ao lado;

3 – Produtividade e lead time: minha pizza ficou pronta em menos de 20 minutos, desde o momento que fiz o pedido. Existe um estoque em processo (será que calculado?) de massas abertas e de pizzas semi-prontas, só esperando o forno. Reparei que o estoque sao para os tamanhos e sabores que mais saem (ainda bem!). A pizza passa por um forno elétrico, cujo tempo é padronizado para todas as pizzas;


São realmente pontos muito interessantes e que geram um resultado enorme aos donos da franquia. Agora, foi a primeira vez que fui ao Papa Jonhs e, ao final do jantar, a conclusão em casa é que vai demorar muito para voltar lá outra vez. 

Mas afinal, qual foi o problema? O processo gera qualidade, a um custo controlado, dentro de um prazo super aceitável... o que está errado que eu não quero voltar lá?

Aqui entra o conceito de valor...

Como sou de São Paulo, valor em uma pizza pra mim concentra-se no sabor, que está diretamente relacionado com o tema de qualidade.

Realmente a pizza no Papa Jonhs ficou pronta rapidamente, tem um preço justo e uma qualidade boa, mas para nós faltava um pouco mais ainda de qualidade. Tem outra pizzaria que é um pouco mais cara, demoram talvez uns 15 minutos a mais pra ficar pronta, mas que tem uma qualidade mais próxima à que buscamos em uma pizza.

Minha conclusão é que não adianta nada ter o melhor sistema de produção e gestão do mundo na sua empresa se você não souber o que o cliente quer de valor e oferecer pra ele. Se não oferecer, ele vai ao seu concorrente buscar.

P.S.: Aqui vale um comentário. Valor é uma coisa muito particular. O que citei acima é valor pra mim. Milhões de pizzas são vendidas diariamente no mundo nas lojas do Papa Jonhs para clientes que estão satisfeitos com o que eles oferecem. Isso é valor para eles e é exatamente o posicionamento da loja: oferecer pizzas de qualidade, a um preço justo e mais rápido que a concorrência (ou igual). Pra quem busca isso, achou um lugar!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

PDCA no Carnaval do Rio

Incrível como qualquer ferramenta de gestão pode ser usada em qualquer segmento em prol de melhorias. Já vi os mais inusitados exemplos, mas confesso que esse ultimo que tomei conhecimento superou todas as minhas expectativas.

Uma escola de samba do Rio de Janeiro, a Mocidade Independente de Padre Miguel, que não conquista um título do carnaval desde 1996, incomodada com a falta de títulos dos últimos anos, resolveu mudar... para melhor!

Não consigo afirmar se conscientemente, mas seguem o modelo PDCA para tal. Primeiramente, buscaram identificar os problemas que poderiam estar causando os maus resultados. Identificaram uma serie de problemas básicos como: infraestrutura ruim do barracão, sujeira, desorganização, falta de manutenção geral, equipamentos antigos e obsoletos... Tudo que contribuía para deixar um ambiente de trabalho perigoso, trazendo riscos para segurança e bem-estar dos que lá trabalhavam. Soma-se a isso a motivação dos funcionários, que certamente era bem baixa.

Além disso, identificaram que uma mudança no modelo de gestão também era necessária. Essas ações fizeram parte do P (plan) da melhoria. No D (do), que está em pleno andamento, ações foram tomadas de modo a trazer uma significativa mudança. Podemos encontrar detalhes na matéria abaixo, com fotos que ilustram bem, mas vou resumir alguns pontos importantes:


1 – 5S (condições básicas de limpeza e organização agora fazem parte do cotidiano)
2 – Manutenção (barracão reformado, troca de equipamentos obsoletos)
3 – Mudança no modelo de gestão (contratação do maior ganhador do carnaval nos últimos anos, organização humana da produção, formalização de contrato de trabalhadores)
4 – Segurança (EPIs, normas e procedimentos de trabalho)

Os próximos passos, C (check) e A (act) devem ser tomados a partir de agora, ou seja, deve-se monitorar constantemente se os prazos estão sendo cumpridos e as metas traçadas serão atingidas. Do contrário, novas ações de mudança deverão ser tomadas.

Seria leviano afirmar que essas ações serão a garantia de um titulo para a Mocidade, após tanto tempo. Mas certamente, os coloca em uma condição de briga diferente de outras escolas.


Mocidade tem tudo para ser um sucesso em 2015. Vamos aguardar...

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Via Fácil com vida fácil

Em minha recente experiência trabalhando como consultor uma atividade rotineira eram viagens. Em sua grande maioria, no meu caso, eram viagens de carro dentro do estado de São Paulo. Pela necessidade, acabei me tornando um usuário do sistema Sem Parar da Via Fácil.

Na última terça-feira, indo para a minha aula de Mestrado, discuti com dois amigos que estavam viajando comigo sobre o quão genial é esse sistema. Minha visão sobre o sistema como um todo era muito positiva. O sistema entrega valor aos usuários a um custo muito baixo. Quem usa o sistema tem motivos para ficar satisfeito. Os benefícios são inúmeros: economia de tempo nas viagens por não precisar entrar em filas, parar e efetuar o pagamento de pedágios, não há preocupação em sacar dinheiro antecipadamente para pagar pedágio, não há risco de ser assaltado ao pagar o pedágio... enfim, um ótimo serviço a um custo muito baixo.

Pois eles me fizeram enxergar de uma outra maneira, pela óptica da Via Fácil. Além de fornecer um serviço que entrega muito valor ao cliente final pelas razões já citadas acima, a Via Fácil ainda ganha em dobro. O crescimento do número de usuários em função da qualidade e utilidade do serviço é impressionante, cerca de 20% ao ano. Em Dezembro de 2009 eram 2,5 milhões de usuários. Em 2010 o faturamento foi de singelos R$3,775 bilhões!! Pouco menos de R$1 bilhão foi re-investido. Façam as contas do que sobra de lucro.

Além do faturamento astronômico, devemos computar um outro ganho gigante: com o crescente aumento do número de usuários torna-se cada vez menor a necessidade de funcionários recolhendo pagamentos em pedágios. Para mim, que passei um bom tempo em estradas nos últimos anos, esse é um fenômeno visível. De 1 cabine para o Sem Parar no início, várias praças operam hoje com 4 cabines dedicadas. Já vi praças com 6 cabines dedicadas. São 4, 6 pessoas a menos por turno de trabalho. Façamos as contas disso nos 15.000Km de rodovias que a Via Fácil presta serviço. São vários milhões de reais a menos de despesas com mão-de-obra.

Sempre ouvi e hoje tenho consciência da importância de garantir fluxo contínuo nas empresas, mas tenho certeza que nunca verei uma melhoria em prol do Fluxo Contínuo gerar tamanho retorno financeiro como o desse caso...